Novamente a praia era a imagem à minha frente. Queria chorar, mas ainda não era
o momento ideal para fazê-lo, precisava de um local sossegado e próximo;
principalmente próximo, o meu choro estava a ser guardado por horas e sabia que
faltava pouco para transbordar.
Olhei para o lado esquerdo e depois para o direito; ambos tinham pessoas a mais
para o meu gosto. Decidi olhar para o espaço em frente: totalmente vazio. Não
pensei em mais nada, apenas me descalcei e andei pela areia fora, colocando-me
num local escondido por entre as dunas. O mar estava azul e forte. As ondas
podiam ser ouvidas enquanto batiam furiosas nas rochas; a minha vontade de
chorar apenas aumentou e uma pequena lágrima caiu.
Limpei-a.
Despi a camisa devido ao calor e deixei que os meus braços ficassem livres para
sentirem o sol.
O meu mp3 foi o passo seguinte. Precisava de uma música que me deixasse
confortável o suficiente para deixar os meus sentimentos saírem e sentirem-se
seguros para serem estudados calmamente. Comecei com música africana e, com toda
a certeza, não funcionava. Veio a Miley. Tal como a anterior, nada! Jonas
Brothers, Ed Sheran, Tó Semedo, Aerosmith,… imensos cantores foram passando, mas
num em especial parou: Guns ‘n’ roses, don’t cry. A música começou a tocar e
todos os momentos passados voltaram à minha mente, mas um em especial fez as
minhas lágrimas iniciarem o percurso.
As malas estavam no carro. O meu tio estava pronto para ir e o meu pai estava à
porta. Consegui ouvir alguém descer as escadas depressa, mas não sabia quem. Um
“tratem da vossa mãe” foi lançado.
Não ia chorar, tinha de me manter forte!
Logo depois virou-se para mim. Eu não tinha força! Abriu os seus braços e eu
rodeei a sua cintura num abraço sem qualquer força. Repito: eu não tinha força!
No entanto o meu pai apertou-me com muita força, força suficiente para me fazer
escorrer algumas lágrimas; o meu desespero aproximava-se. “Chau Sarita, trata da
tua mãe e dos teus irmãos”, soltou. Aquela frase teve um impacto enorme em mim,
maior do que era realmente necessário. Aquele era o sinal da despedida. Um beijo
foi depositado na minha face e os braços desenvolveram-me, fazendo-me sentir a
pessoa mais desprotegida do mundo. O desespero estava no extremo e eu chorava
compulsivamente.
A minha irmã foi a próxima e, em seguida, o meu irmão. Todos tiveram o mesmo
fim, o rosto lavado em lágrimas.
Logo depois vi o meu pai chorar. Ele nunca chorava! O meu coração doeu mais um
pouco. Ele saiu a correr e entrou no carro que depressa acelerou. Era o fim!
A partir daquele momento todas as recordações surgiram, todos os copos e
decorações partidas foram recordadas, todas as vezes que os meus irmãos choraram
por ver a mãe num estado de desespero total ou todas as vezes que a mãe gritou
com eles e eu me coloquei no meio estavam lá, todos os palavrões que disse à
minha mãe, todas as vezes que a mandei calar ou ir embora, todas as vezes que
saí de casa com os meus irmãos, durante grande parte da tarde estavam lá. E as
lágrimas continuavam. Mais uma lembrança voltou, tornando tudo mais intenso que
nunca.
Tinha sido um dia complicado.
A minha mãe ligou-me a chorar e a falar mal do meu pai, os meus irmãos choraram
ao telemóvel e as minhas orientadores de estágio ainda tinham decidido que era
um óptimo dia para me humilhar. Eu estava péssima para ser sincera.
Precisava de alguém.
Não queria falar sobre o que tinha acontecido, apenas precisava de um abraço e
umas palavras de apoio. Mas a quem ligar? A verdade é que todos os meus supostos
amigos tinham fugido quando eu mais precisei! E os que tinham ficado não me
deixavam suficientemente à vontade. Eu estava sozinha nesse campo!
Pensei na minha mãe, “telefonou-me a chorar, não vou ligar. Além disso não estou
bem para a ouvir a desabafar e a falar mal do pai!”, pensei. Descartei essa
hipótese. Irmãos, “Eles estavam a chorar ao telemóvel, não lhes vou ligar, além
disso já têm de aguentar tudo dentro de casa.”. Também coloquei de lado. Pai?
Pai! Sorri pela primeira vez naquele dia e marquei o número do meu pai; sabia
que ia gastar o saldo todo com ele, mas eu precisava.
Liguei.
Ele atendeu em poucos segundos. Ouvir a sua voz a dizer “Tô Sarita” foi o
melhor do meu dia. Mas dois minutos foi o máximo que falou comigo. Quando lhe ia
dizer o “maravilho” dia que tinha tido, após ele me contar o seu, ele
descartou-me. Com uma linda e maravilhosa desculpa. Pensei em pedir-lhe para
esperar apenas 30 segundos, era o que eu precisava, mas despachou-se a despedir
e a desligar o telemóvel.
O meu coração parou na hora, o meu corpo tremia e as lágrimas depressa começaram
a cair. Foi quando descobri: eu estava sozinha!
As lágrimas escorreram mais e o meu punho fechou com uma força enorme nele,
enquanto a outra mão insistia que as unhas deviam estar espetadas na minha pele;
eu precisava acalmar-me, precisava parar o choro. Foi como chorar por tudo o que
não tinha chorado, mas o meu coração continuava cheio e fechado a cadeado cuja
senha nem por mim era conhecida.
O vento soprava mais forte e o som das ondas era mais intenso. Uma nuvem passou
em frente ao sol e a areia da praia foi escurecendo a olhos vistos, com uma
velocidade nunca vista por mim, até chegar ao local onde eu me encontrava. Era o
que eu precisava para observar o mar sem ter que ter os olhos quase cerrados.
Aproveitei. As ondas vinham com força e o mar fechava em diversos pontos
bastante próximos; o azul dominava-o como nunca tinha visto; a espuma branca era
quase inexistente.
Aos poucos o choro compulsivo desapareceu e a calma começou a reinar.
Limpei as lágrimas.
Naquele momento dei-me conta que a música que tocava era outra; November Rain
dos mesmos artistas. Coloquei a mesma música do princípio e vi o sol voltar;
iria ser complicado olhar para o mar novamente.
Mais uma meia hora se passou por entre recordações e lágrimas. Mas depois
percebi que tinha que colocar umas ideias em dia. Primeiro pensei no meu irmão:
ele tinha crescido de um mês para o outro, a nível sentimental. Com ele podia
estar mais descansada. A minha irmã: andava confusa com tudo o que se passava e
as duas personalidades que ela tinha – a de antes e a do momento – estavam em
conflito cada vez que algo era dito pela mãe. Mas desde a conversa que tinha
tido com ela, uma delas desapareceu e apenas uma permaneceu e com personalidade
bastante sólida. Menos outro problema. Mãe: salta de personalidade em
personalidade e nenhuma consolidada a não ser a inicial; Problema! E aquelas
eram as minhas conclusões.
Depois veio o mais importante naquele momento: eu! Fechei os olhos e tentei
acalmar o meu coração para perceber a minha evolução, para entender o que me
impedia de evoluir mais, mas apenas consegui encarar o vazio. Parecia que eu não
estava no coração mas numa câmara secreta deixada para enganar tolos, totalmente
vazia. Eu não conseguiria ter acesso aos meus sentimentos, tudo por aprender a
bloqueá-los.
Esqueci o coração e utilizei a cabeça. “Se racionalizo os sentimentos a cabeça
há-de ajudar”, pensei, mas enganei-me.
Naquele momento entendi que eu já não sabia o que pensar de mim; eu já não sabia
sequer quem era; eu tinha mudado; quase não me reconhecia; era certo que eu
tinha crescido em alguns aspectos. No meio de todas as conclusões ficou uma por
tirar e a que mais me importava. “E eu? Tenho a minha estrutura bem consolidada
ou é apenas uma farsa que baixará assim que alguém me baixe as defesas?” . Em
pouco tempo vou descobrir…